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Para que a rede conheça os participantes do Circuito Montagem publicamos hoje a entrevista do Fernando Krum, que é formado em engenharia elétrica, desenvolve projetos interativos e dá oficinas relacionadas à arte interativa, Arduino, Puredata e produção audiovisual. Ele vai participar do Circuito e dia 15 vai estar aqui na mesa redonda de pré-lançamento, jogando ideias na mesa com quem se sentir chamado.

Todas as atividades terão streaming a partir do canal do laboratório, bem como produção de conteúdo exclusivo a partir do RádioLAB e redes sociais.

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1- Como você imagina que a criação de tecnologias sociais pode ser praticada em um laboratório cidadão, em um cenário que muitas vezes carece de investimentos? Vê a reciclagem e a reutilização de “lixo” tecnológico como uma boa opção?

Segundo a Wikipedia, as tecnologias sociais são um conjunto de técnicas que podem ser facilmente reproduzidas por terceiros com a finalidade de gerar algum benefício social, proporcionando uma melhor qualidade de vida. Sendo assim, tais técnicas estão diretamente vinculadas às pessoas, às particularidades de diferentes grupos para suprir suas demandas essenciais (alimentação, educação, saúde, habitação, renda, meio ambiente, água potável, etc.)

Acredito que um laboratório cidadão que prevê a criação de tais tecnologias deverá debruçar-se sobre os problemas próximos de nossa cidade, buscando mapear e classificar os espaços fragilizados de forma a estabelecer prioridades de ação de acordo com as capacidades de atender cada uma. A partir deste ponto, será possível criar grupos de trabalho para atender cada área identificada inicialmente, pensando em “facilitadores” que poderão conduzir os encontros ou, em colaboradores que poderão suprir certas demandas para cada caso. Estes facilitadores e colaboradores deverão ser recompensados por estarem gerenciando o processo e trazendo documentação formativa organizada para o grupo.

Estas atividades deverão ser abertas ao público interessado, preferencialmente sem uma cobrança de conhecimentos prévios. Todos deverão manifestar a forma que acreditam melhor colaborar para o crescimento da atividade.

A reciclagem e reutilização de “lixo” tecnológico é interessante do ponto de vista de conscientização do consumo, ao trazer para debate o conceito da obsolescência programada. De fato, para algum projetos, é possível usar muito material descartado para construção de protótipos. Isto é feito nas oficinas de metareciclagem e na criação de instrumentos musicais experimentais.

 

2- O compartilhamento de experiências é um dos pilares da inovação e da criação conjunta; como você considera, em espaços como os makerspaces, a viabilidade da criação de linhas de trabalho para iniciantes, focadas na criação de tecnologias e no empoderamento através desse novo aprendizado?

Creio que as atividades de iniciação, de despertar curiosidade, são as mais importantes e essenciais para espaços de criação conjunta como os makerspaces. São elas que criam o lastro para o bom desenvolvimento do espaço. Delas é que surgem os primeiros encontros entre pessoas com interesses comuns que irão frequentar estes espaços e estarão replicando este conhecimento adiante e atraindo mais pessoas. Ao criar esta base sólida, naturalmente novas demandas surgirão, partindo para atividades mais avançadas.

É importante criar um ambiente amistoso, que estimule o questionamento livre, que não reprima os erros e distribua responsabilidades. Precisamos reconhecer que a experimentação e os erros são muito importantes para a inovação. Além disso, estes encontros devem ser descontraídos. Nem demasiadamente técnicos, tampouco muito superficiais: gosto de dizer que, se estamos lidando com programação, “algum número e alguma lógica nós vamos ver pelo caminho”. É preciso subir um degrau de cada vez.

 

3- Que tipos de articulações, ferramentas e práticas organizacionais melhoram e qualificam uma cobertura colaborativa? Existe alguma maneira ideal de realizá-las, para ti?

Primeiramente, é necessário citar que o “contexto histórico” em que eu coordenei uma prática ampla de cobertura colaborativa foi o de cinco anos atrás. Não é uma década mas, quando se trata de apropriação tecnológica vinculada à internet, esta informação se torna muito relevante (vide a evolução dos smartphones neste período). Os equipamentos mudam, evoluem, têm tela maior, mais megapixels, mais memória, melhor captação de áudio, etc. As histórias, no entanto, seguem acontecendo e devem ser contadas de alguma forma. Digo “apropriação tecnológica” pois tomamos ferramentas, serviços que estão disponíveis na rede e configuramos cada uma para que funcionem em sintonia, para que alimentem um mesmo canal de difusão.

O que me parece decisivo para o bom andamento deste tipo de atividade é a efetiva integração das mídias, organizadas em um portal, e a integração entre as pessoas envolvidas na ação. É necessário realizar reuniões com os participantes e separá-los de acordo com as atividades que querem desenvolver (fotografia, vídeo, áudio, texto, redes sociais, etc), definir pautas e dar autonomia para que a máquina possa caminhar com suas próprias pernas. Conseguindo equalizar as equipes e deixando claro que cada um depende do outro para que o resultado saia com uma boa qualidade, já é “meio caminho andado”.

 

4- Internacionalmente, diversos living labs possuem linhas de criação tecnológica bastante desenvolvidas. Que tipo de projetos e aplicações de nova tecnologias você sente ausência no Brasil, e que marcam sua presença nos espaços de inovação do mundo?

Pude acompanhar mais de perto o movimento na Espanha, através do Medialab Prado (vinculado ao Museo del Prado de Madri) e na Alemanha, quando participei do festival “Transmediale” de Berlim (edições de 2011 e 2012).

O Medialab Prado é uma referência quando se trata de laboratórios de desenvolvimento colaborativo, abrindo espaço para a criação constante de convocatórias para as diversas frentes de trabalho que desenvolvem. Estão vinculados à secretaria de Artes, Esportes e Turismo de Madri e suas atividades são gratuitas. Existe uma programação de encontros semanais, que dão andamento a cada projeto, o que promove uma circulação constante de pessoas pelo espaço.

O festival Transmediale conta com 27 anos de existência e reúne uma série de atividades dentre workshops, conferências e  performances buscando as conexões entre arte, cultura e tecnologia. O festival se instala nas dependências da HKW (Casa das Culturas do Mundo, em tradução minha) de forma muito dinâmica, criando um ecossistema para intercâmbio entre os participantes do evento. As oficinas têm um número limitado de participantes mas acontecem muitas vezes em espaços abertos, onde o público pode assistir o andamento das atividades.
No Brasil, várias instituições de ensino superior têm usado o termo “Medialabs” em iniciativas de pesquisas vinculadas à novas interfaces, mídias digitais e inovação tecnológica. Também vemos iniciativas esporádicas em eventos de arte e tecnologia que oferecem oficinas para experimentações através de hacklabs abertos ao público.

Nos Estados Unidos, bibliotecas estão se reinventando ao criar makerspaces em suas dependências. Em um artigo publicado na revista American Libraries Magazine (jan/fev, 2013), diretores de bibliotecas relatam um aumento considerável na ocupação das mesmas após a implantação destes espaços de criação colaborativa.
Acredito que é possível criar tais espaços no contexto brasileiro, sempre que as ferramentas necessárias para o desenvolvimento de protótipos estejam acompanhadas de atividades formativas e laboratórios abertos, criando uma comunidade ao redor destes espaços.

 

5- Temos o desejo de iniciar uma linha de experimentação musical aqui no TransLAB. Que boas experiências tu tiveste nisso, e o quanto há a mistura com a lógica do D.I.Y e da filosofia Maker? Podes falar um pouco da oficina “Experimentações Artísticas com Arduino”, ou relevaria algum outro evento ou oficina?

Durante a minha estância em Salvador, enquanto estive fazendo o mestrado na UFBA, participei de várias atividades formativas, sempre enfatizando a criação com software e hardware livre. Acho importante construir estas oficinas com ferramentas que estarão disponíveis para todos após o término das atividades: as soluções com software livre são gratuitas e podem ser executadas em vários sistemas operacionais. Além disso, tentamos colocar em prática uma filosofia de retribuir algo para a comunidade, seja documentando o desenvolvimento dos projetos, compartilhando código ou simplesmente consolidando um novo grupo de usuários de determinada ferramenta.

Acho que a lógica do faça-você-mesmo está contida na filosofia maker. São indissociáveis. Ao desenvolver uma nova idéia, nos deparamos com obstáculos que nos incentivam a buscar soluções. A rede está repleta de soluções compartilhadas. Podemos nos inspirar em algo já feito, evoluir estes projetos, e republicar o resultado com as alterações feitas. Dessa forma, mantemos o ecossistema em equilíbrio.

A oficina “Experimentações Artísticas com Arduino” foi realizada como uma atividade do Labdebug – um projeto de pesquisa e extensão vinculado à UFBA. Foram 24 horas aula tratando sobre hardware livre, componentes eletrônicos e integração do Arduino com o software PureData – que permite a expansão das possibilidades de interatividade com audio e vídeo. Como resultado final da oficina criamos um sintetizador com prendedores de roupa, papel alumínio e percevejos, todos gentilmente colados em uma caixa de papelão. Esta caixa foi exibida em vários eventos em Salvador e sempre chamou a atenção, tanto pelo som que produzia quanto pela forma rústica, de gambiarra, não convencional. Acho que este tipo de ação funciona para romper com aquelas ideias de que computador é um “negócio chato”. Dependendo da abordagem, podemos transformar em algo divertido e interessante. ESTE é o desafio.

 

6- Que áreas do conhecimento tu consideraria que saem mais beneficiadas quando praticadas em um contexto de transdisciplinaridade? Quais as boas misturas que podemos fazer, visando a inovação social?

Não vejo distinção de benefício entre uma área ou outra. À priori, na abordagem transdisciplinar, existe um compartilhamento de metodologias entre as áreas envolvidas em uma determinada atividade. Na prática é preciso muito desprendimento, muito diálogo e uma vontade coletiva de contribuir.

Em um contexto de inovação social, acho importante destacar os objetivos das ações, digerir algumas experiências e termos que “importamos” do exterior e simplificá-los, adaptá-los à nossa realidade, para gerar nossas próprias soluções, com as nossas capacidades, procurando evoluir coletivamente. Essas misturas deverão se dar de acordo com as necessidades de cada ação.

Mais sobre Fernando Krum em www.ferkrum.com.