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Um resgate histórico das manifestações de junho por Arthur Viana da Revista Bastião.

Imagem de destaque de Ramiro Furquin/Sul21

 

Ato I. Dia. Em frente à Prefeitura Municipal de Porto Alegre, manifestantes se reúnem para protestar contra a privatização de espaços públicos, prática recorrente desde o anúncio da Copa do Mundo FIFA no Brasil. Nos últimos dias, um chafariz de, no mínimo, péssimo gosto arquitetônico, havia sido construído em meio à Praça XV por um dos patrocinadores do evento. O local é histórico para movimentos sociais porto-alegrenses. Apesar do descontentamento, o clima é de festa, com música, apresentações circenses e, vez que outra, algum discurso inflamado contra o governo José Fortunati.

Ato II. Noite. A festa se expande para a praça, perto de um boneco inflável de plástico, no formato de um tatu-bola.Ele é mascote do grande evento futebolístico e, por isso, símbolo do que se lutava contra naquele momento. A polícia, no entanto, sem ser convidada, interfere, sob a justificativa de que a integridade do boneco estava ameaçada. O ser inanimado de plástico é prioridade, e a polícia usa uma força incrivelmente desproporcional contra os participantes do protesto, que nada faziam além de dançar em torno do tatu-bola. O boneco é esvaziado e a guerra é declarada. Escolham os seus lados.

Ato III. Dia. O Araújo Vianna, reduto histórico da cultura de Porto Alegre, amanhece cercado e com novo dono. Após anos de abandono, a prefeitura resolve, em vez de encarar o problema, se livrar dele de vez, cedendo-o à produtora Opus. O caminho mais fácilnão é, necessariamente, o certo. O governo se defende, dizendo que, anualmente,25% das datas ainda são públicas e, nesses dias – e somente nesses dias -, a prefeitura pode fazer o que bem entender com o auditório.

Ato IV. Noite. Após show do Tom Zé, o público, já incomodado com a claustrofobia proporcionada pelas grades que cercam o Araújo Vianna, quer sentar nas gramas em torno da casa. Não pode. Os seguranças privados da Opus apelam para uma violência extremada e expulsam todos dali. As pessoas, porém, se apossam de uma grande lata de Coca-Cola inflável e a carregam sobre as cabeças até a Osvaldo Aranha. A grande lata é incinerada e derrete frente a testemunhas em plena avenida Osvaldo Aranha. A fumaça sobe preta, envolta em danças e ritos de vitória.

Ato V. Noite. Um novo protesto contra o pretenso aumento da passagem de transporte público leva cerca de duzentas pessoas ao centro de Porto Alegre. Após a concentração em frente à prefeitura, a passeata segue pelas ruas da cidade, em paz. Atos como esse se repetem, com um envolvimento cada vez maior dos cidadãos.

Ato VI. Noite. A passagem sobe de R$ 2,85 para R$ 3,05. O descontentamento com o prefeito alcança níveis incríveis e a passeata contra os abusos nos ônibus une milhares de jovens. A população enfim reagia, após a agressão diária do poder público. No protesto, o prédio da prefeitura sofre, com pedradas e spray. Os manifestantes sofrem mais, dispersados com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

Ato VII. Noite. Chovia muito. Ainda assim, milhares de idealistas marchavam pelas ruas do centro de Porto Alegre. O dia era de festa: uma liminar da justiça barrava o aumento das passagens, que voltavam imediatamente a custar R$ 2,85. A cachoeira que descia a Júlio de Castilhos não era suficiente para impedir a caminhada do movimento.A força dessa união mostrava mais ímpeto que antes imaginado. A batalha estava ganha. A guerra, no entanto, ainda estava por vir.

Ato VIII. Noite. Um acampamento protege árvores de irem ao chão na avenida Beira-Rio. A ideia da prefeitura é duplicar ruas, o que, para eles, representa progresso. Os ativistas pensam o contrário e, para evitar o pior, se penduram nas árvores. Sorrateiramente, agentes da prefeitura, apoiados por policiais, invadem o acampamento em plena madrugada, escondidos aos olhos da população. Pegam todos desprevenidos. Os manifestantes são presos e as árvores, derrubadas. Para o bem ou para o mal, a Porto Alegre do futuro começa a aparecer.

Ato IX. Noite. A Batalha da Ipiranga. Já não era o primeiro dia de confrontos. A marcha reunia 20 mil pessoas. De repente, a bomba explode, a adrenalina entra no sangue e perde-se a noção de tempo/espaço. Os segundos de calmaria que antecederam a cena parecem pertencer a uma vida passada. O cenário é inimaginável: uma avenida Ipiranga lotada, milharesde pessoas abaixo de chuva, carregando faixas, cartazes, pedras. O rastro de vidraças quebradas mostra o tamanho do descontentamento. O destino da massa é um prédio privado, ironicamente defendido a unhas e dentes pelas forças públicas. Bombas de gás lacrimogêneo são lançadas a esmo, estouros de efeito moral desnorteiam manifestantes. Os mais à frente sofrem com balas que não matam, mas marcam. O arroio Dilúvio, no meio de tudo, ergue uma cortina de fumaça a partir das bombas de gás que, desviadas,descansam sobre suas águas poluídas.

Ato X. Noite. Todos tentam recuar. O cheiro do gás invade e agride as narinas e, de tão enjoativo,o vinagre alcançado por uma mão amiga parece perfume. Os olhos ardem, a garganta fecha. Com dificuldades, a multidão retorna para a avenida João Pessoa. Bombasse multiplicam pelo céu, em perseguição aos protestantes já em retirada. É um massacre.

Ato XI. Noite. Em meio às poças e às pessoas, o trajeto é torto. A chuva não dá trégua. A polícia, muito menos. Em uma tentativa de reagrupamento, os manifestantes rumam para o Palácio Piratini, sede do governo estadual, comandante oficial das forças militares. Um grupo reduzido ainda resiste. A cena é de cinema. Em meio a cânticos, os cidadãos de Porto Alegre tomam de assalto o viaduto Otávio Rocha. Subindo pelas escadarias, percebe-se a multidão que segue o movimento. A sensação de não estar sozinho é inebriante. Ao encontrar resistência policial na rua Duque de Caxias, todos voltam a descer. O caminho leva à rua Jerônimo Coelho.Mais à frente, na esquina da Praça da Matriz, um grupo indignado ataca o Palácio da Justiça.Dão as costas para a praça dos poderes e parecem momentaneamente esquecer o destino final, o Piratini. Se olhassem nadireção da Igreja da Matriz, ao lado do palácio do governo, teriam tempo para uma reza final.

Ato XII. Noite. A cavalaria da Brigada Militar vem a trotelargo, majestosamente descendo a rua Espírito Santo em direção aos manifestantes. Os animais brancos e fortes levam no lombo homens trajados para uma guerra medieval, com sabre em punho. A luz de um trovão ilumina a cena por um breve instante, deixando transparecersob a luz fantasmagórica da chuva a raiva que vinha de todos os lados. Os manifestantes batem em retirada e a força policial arrasa quem fica pelo caminho.

Ato Final. Amanhã, ou depois. Toda a ação gera uma reação. Tudo explodiu: a paciência, a razão, a bomba, o amor. E agora, como colocar ordem na desordem? Quando uma bomba explode, perde-se a noção de tempo/espaço. Os segundos de calmaria que antecedem a explosão parecem pertencer a uma vida passada. Os cheiros, as cores, os sons,tudo assume uma nova dimensão. A cortina de fumaça que sobe e cega a todos intoxica e não permite que se enxergue sequer alguns passos à frente. Somente quando a névoa baixar e os olhos deixarem de arder é que teremos noção do estrago, do que ficou em pé e do que terá que ser reerguido. O coração palpita intensamente, na expectativa por tempos mais claros. Apesar de ter presenciado cenas violentas, de todas as partes, ele bate mais leve, feliz por ter sido testemunha desses atos. É uma época incrível para estar vivo. O que virá após as bombas de gás, as pedradas e tantasagressões ninguém sabe. A certeza é que, daqui em diante, nada será como foi.