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Por Felipe Morozini

Originalmente publicado no portal FFW

1969, terça-feira. “A maior obra em concreto armado em toda a América Latina. É uma via elevada que liga a Praça Rooselvelt à Avenida Matarazzo”. Assim Paulo Maluf inaugura a obra mais polêmica da cidade. 3,4 quilômetros elevados vendidos como a nova solução do sistema viário para a cidade de São Paulo. Tráfico rápido e sem cruzamentos.

2011, domingo. Milhares de pessoas se reúnem na tal via elevada levando piscinas, bolas, bicicletas, filhos, cachorros e papagaios. É como se cada um dissesse: sr. Paulo Maluf, o senhor estava errado. E sabia disso na época.

Explico.

Quando mudei para a frente do Minhocão, no apartamento de minha bisavó, ele começou a fazer parte de minha rotina. E da minha vida. Quis entender o que era aquela veia pulsante de carros e motos e concreto. E que deixou tudo em volta feio e sujo. Isso faz 11 anos.

O primeiro livro que caiu na minha mão foi “Morte e Vida das Grandes Cidades”. Um livro ótimo para quem quer entender a cidade em que vive.

E tinha um capítulo que explicava o fenômeno urbano que dividia bairros e mudava completamente o perfil de um local. A construção de uma avenida, de uma estrada, de uma via elevada. Em 1966 foi constatado que os entornos desses lugares acabavam virando locais abandonados e não desejados. Ou seja, quando o Minhocão foi construído já se sabia o que poderia acontecer.

Ora, transformaram um pacato bairro, Santa Cecília, na passagem de uma estrada?

Foi o que aconteceu. Famílias tradicionais da avenida São João mudaram-se para Higienópolis e seus apartamentos foram transformados em cortiços. O comércio mudou. Os chapéus e luvas de outrora deram espaço a ovos coloridos em bares sujos e móveis antigos deixados pelos que já foram. Judeus subiram a rua e bolivianos chegaram com a mesma fé. E o valor dos apartamentos  caiu 60%. Como estava escrito no livro.

Uma solução viária nunca deveria vir antes da qualidade de vida dos habitantes de uma cidade. Nunca.

E não estou falando por mim, mas talvez por minha bisavó e suas amigas que ainda restaram. E com quem converso até hoje sobre isso.

Imagina que você mora no terceiro andar de frente para o Minhocão. 22 decibéis. Quando abre para os carros, às 6h30, os decibéis sobem para 98. É o equivalente a um avião, só que ele não para nunca.  Até as 21h30, horário em que centenas de pessoas que assistem às suas sagradas novelas, abaixam seus volumes de 98 para 14. Para mim isso sempre foi uma metáfora para falar do primeiro problema que é o Minhocão. O barulho.

Eleito como a obra mais feia de São Paulo, sempre causou repulsa e controvérsia. Uns diziam que era o progresso, outros, o fim dos tempos. E é assim até hoje.

Depois de muitos livros sobre o assunto, de falar com vários arquitetos que respeito, de participar de documentário sobre a vida das pessoas que vivem à margem do Minhocão (“Elevado 3.5″), pintar flores gigantes para melhorar a auto-estima do bairro e fazer palestras em universidades sobre urbanismo criativo, tenho minhas convicções e opiniões.

Recentemente fui conhecer o parque High Line, em Nova York. Jardim suspenso em um antigo trilho de trem. Fórmula que deu certo de um processo de revitalização de toda uma área. Um exemplo. E é lindo. Mas ali já não passavam mais carros. E onde colocamos nossos carros?

Onde estão os mendigos? Qual a solução para o problema?

Por que nenhum prefeito nunca efetivou a retirada do Minhocão, embora hoje em dia todos tenham isso em seu plano de governo? E nenhum o fará pelo simples fato de ser uma obra que vai durar mais de quatro anos e que ninguém quer que os louros de tal obra seja do próximo prefeito. Simples assim.

Mais uma vez o interesse privado vem na frente do público. Do povo. Não podemos ser elitistas e estéticos quando temos um problema tão sério como os mendigos e crackeiros. Caso de saúde.

Com o valor de uma obra como o High Line, você tem tratamento para milhares de pessoas, em todo o país. Mais casa, comida e roupa lavada. Por que você já imaginou quanto não iria ser desviado de verba nessas obras todas?

Acho meio utópico, hoje, pensar num High Line aqui. Casinhas para passarinhos no meio de um jardim de lavanda. Água no pé, sempre fresquinha e limpa para refrescar em dias quentes, uma horta com tudo orgânico, obras de arte ( inclusive doadas por galerias brasileiras, o que achei muito bom) ao ar livre. Esse é o High Line.

Que cena bonita uma família chegando com balões coloridos e uma cesta de piquenique, os modernos chegando com seus equipamentos sonoros e seus tênis, executivos indo comer um lanche e todos tendo que passar por uma família de moradores de rua (que mora ali há sete anos, numa barraca de camping) e uma turma de crackeiros para chegar no tal jardim encantado e suspenso. Que passeio idílico é esse que o paulistano sonha?

Claro que eu adoraria abrir minha varanda e ver um lindo parque urbano, com turistas do mundo todo, arquitetos interessados nos resultados, o impacto positivo que isso teria na identidade e na economia da cidade. Galerias abririam e restaurantes modernosos chegariam. Tive que ler um livro que explica a verdadeira historia do High Line. E o buraco é bem mais embaixo. Precisamos de ações sociais. Iniciativa privada e governo juntos.

Vias elevadas são ótimas casas para quem não tem casa. E eu prefiro que se tiver que ser investido dinheiro na região, que seja nessas famílias que eu cruzo todos os dias pelas ruas. Sonho com uma cidade melhor. E arregaço a manga quando o assunto é esse.

E sonho com uma Santa Cecília que eu não conheci, talvez utópica também, mas acima de tudo, uma cidade mais pensante e mais generosa.

Porque hoje o fato é que abro minha janela num domingo e vejo tapetes de grama artificial rodeados por prédios coloridos, festa junina, piscinas, bloco de carnaval, modernos e caipiras, ciclistas e cachorros, nordestinos e gringos, churrasquinho grego, pipoca, cachaça, peladas deitadas no asfalto, crackeiros e bebês, padres e putas, todos buscando seu lugar ao sol.

Por essas e por outras que eu odeio São Paulo. Só que ao contrário.