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Por Eduardo Nunes – originalmente publicado em Periscópio

Foto por Ramiro Furquim/ Sul21

Este é um texto sobre o protesto que acabou em pancadaria e destruição do mascote da Copa no centro de Porto Alegre, mas antes de entrarmos no tema é preciso uma pequena digressão para explicar o título da postagem.

O título original do primeiro filme da série Rambo (aliás, um baita filme, que nada tem a ver com a propaganda reaganiana das sequências) é First Blood. Em uma cidadezinha do norte dos EUA, John Rambo,  um veterano do Vietnã renegado em seu próprio país, é injustamente preso e agredido pela polícia. Ele foge, se refugia em uma floresta e é caçado por policiais e soldados.

Encurralado depois de destruir metade da cidade, um Rambo desesperado diz ao seu mentor, o coronel Trautman: “They drew first blood, not me!”

Aqui em Porto Alegre, na noite de ontem, sangue foi derramado. Manifestantes que organizaram, via redes sociais, um ato “em defesa da alegria” e em protesto contra a privatização do Largo Gênio Peres (para ler sobre essa privatização, clique aqui) entraram em confronto com policiais. A foto acima mostra que a porrada comeu mesmo. Policiais e ativistas (e até jornalistas) acabaram feridos. E o Tatu Bola inflável que lá estava, símbolo da privatização do espaço, foi derrubado e esvaziado.

Houve violência de ambos os lados (da parte de policiais e de manifestantes) e muita gente está justificando, nas redes sociais, as ações dos dois lados. Uns dizem que a polícia agiu certo em baixar o sarrafo, outros dizem que a turba é que está com a razão.

A pergunta que faço, parodiando o filósofo Rambo, é: quem derramou sangue primeiro? De onde partiu o primeiro ato de violência?

Nesta situação, que começou bem antes da batalha campal de ontem, o primeiro ato de violência partiu do poder público, ao mutilar o Largo Glênio Peres, um tradicional espaço de uso comum do povo de Porto Alegre. Uma área considerável do Largo foi CERCADA e entregue a uma empresa privada para exibir um boneco inflável. Eventos como as feiras populares que lá eram realizadas foram proibidos. Este foi um ato de violência contra o povo de Porto Alegre.

O segundo ato de violência foi perpetrado pela empresa que “adotou” a área, e que descaracterizou o mascote da Copa do Mundo. O Tatu-Bola destruído pelos manifestantes não é o símbolo da Copa. O verdadeiro mascote da Copa do Mundo (para conferir, clique aqui) usa camiseta branca e não tem qualquer marca comercial estampada no peito. O boneco destruído ontem usava camiseta vermelha e tinha uma logomarca. O mascote ainda é pouco conhecido da população e posicionar o impostor de modo tão ostensivo e em um lugar tão central da cidade com certeza é uma violência cultural que deseduca a população.

Será que essas duas violências originárias justificam a violência de ontem? Nas redes sociais, está cheio de gente dizendo que os manifestantes “perderam a legitimidade” ao atacar o mascote, que “nada justifica o vandalismo”, etc .

A questão é complicada. Sei que muitos atos de violência já foram benéficos. Por exemplo, é graças a atos de violência, vandalismo e depredação que hoje temos uma legislação que defende o trabalhador (sim, leitor pacato; se você lê esse post enquanto está em casa por atestado médico ou se já planeja as férias de verão, AGRADEÇA AOS VÂNDALOS QUE DESTRUÍRAM FÁBRICAS NO PASSADO). É graças a atos de violência que diversos grupos minoritários têm hoje os seus direitos assegurados.

Pessoalmente, sou contra o confronto físico com policiais. Isso gera repercussão negativa (mesmo que a causa seja justa) e coloca o grosso da população, essa massa amorfa e apática, contra os manifestantes.

Mas acredito que, neste caso do Largo Glênio Peres, esconder ou omitir as violências originárias do poder público e de uma empresa multinacional também é vandalismo, também é violência. Achar que revitalizar o Centro é sinônimo de tirar o povo do Largo e beneficiar empresas é um gravíssimo ato de violência, que deve ser denunciado.

Se esta é uma briga de sujos contra mal lavados, adoto o seguinte critério: entre bonecos infláveis e pessoas, fico do lado das pessoas. Não é da cabeça do boneco que sai sangue.