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Na última semana de Maio de 2015, duas integrantes da equipe do TransLAB, a Liliane Basso e a Aline Cereja,  participaram de uma oficina de desenvolvimento de recursos de Tecnologia Assistiva produzidos com papelão. Com duração de dois dias, o curso foi realizado no Centro de Tecnologia Adaptada de baixo custo da Associação Laramara – Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual.

Registro da oficina: cola secando! (Foto: Aline Cereja)

Registro da oficina: cola secando! (Foto: Aline Cereja)

A Laramara está localizada em São Paulo e é uma organização sem fins lucrativos, fundada em 1991 por um grupo de profissionais com experiência na área da deficiência visual e pelo casal Victor e Mara Siaulys, pais de uma jovem deficiente visual. Hoje a Associação desenvolve um trabalho integrado entre família, escola, empresas e comunidade, em geral visando à inclusão da pessoa com deficiência visual, a partir de uma perspectiva sociocultural, assistencial, educativa, psicossocial e ecológica.

O Centro de Tecnologia Adaptada de baixo custo é um espaço de desenvolvimento e produção de adaptações (mobiliários e outros utensílios domésticos voltados às atividades diárias) que tem como objetivo atender às demandas de crianças e adolescentes com deficiência visual e física. A proposta é ensinar os pais das crianças a fazerem os produtos para seus próprios filhos, através de recursos economicamente acessíveis.

Uma das oficinas oferecidas consiste na reaplicação de técnicas de utilização do papelão no desenvolvimento de um conjunto de mobiliários para crianças com deficiência. Ao longo dos dois dias de atividades práticas que a equipe do TransLAB participou, foram produzidos planos inclinados, cadeiras adaptadas e parapódiums, todos eles utilizando o papelão como principal recurso material.

Tanto o processo de desenvolvimento dos mobiliários, quanto as técnicas de utilização do papelão aplicadas a esse tipo de produto e apresentadas ao longo da oficina, foram muito ricas. Ampliaram nossas percepções em relação às inúmeras possibilidades estruturais e formais que o papelão oferece e reforçaram a importância de pensar na viabilização de projetos acessíveis e alinhados com as demandas sociais, econômicas e culturais das pessoas com deficiência.

Contudo, essa vivência chamou a atenção para algumas questões importantes. Percebe-se que, embora algumas das alternativas oferecidas no mercado e até mesmo adaptadas apresentem grande potencial criativo, elas acabam contemplando apenas atributos práticos e de ordem funcional, essenciais para promover o desenvolvimento sensorial, motor e cognitivo, mas que ao mesmo tempo não dão conta de outras dimensões que reforçam a experiência de uso, emocional e afetiva com o produto. Acredita-se que isso acontece, em parte, porque a abordagem para o desenvolvimento desses produtos ainda está pautada em um modelo funcionalista, cujo foco é solucionar uma deficiência de ordem física e emergencial (NEWELL, 2003).

De acordo com Hekkert (2006), a experiência de um produto é “todo o conteúdo afetivo que é eliciado pela interação entre usuário e produto, incluindo o grau em que os sentidos são gratificados (experiência estética), o significado atribuído ao produto (experiência de significado) e os sentimentos e emoções despertados (experiência emocional)”. Trata-se da oportunidade de elevar esses produtos a um novo patamar de qualidade – estética e simbólica – e de proporcionar às crianças com deficiência oportunidades de escolha em relação aos referidos produtos.

O entendimento dessa realidade tenciona a reavaliação não só dos produtos para pessoas com deficiência mas também seus modelos de desenvolvimento. Essencialmente, atenta para as dimensões de experiência que compõem um produto, que influenciam as relações de pertencimento e que não são consideradas no processo de criação desse tipo de artefato.

O uso de materiais alternativos e de baixo custo proposto pelos profissionais do Centro de Tecnologia Adaptada do Laramara é um grande avanço em direção a viabilização de recursos de Tecnologia Assistiva. Hoje, esses profissionais geram alternativas para pessoas que não tem nenhuma. Contudo, a formação de equipes interdisciplinares para o desenvolvimento desses produtos é urgente. A participação de profissionais da área do design é latente e pode contribuir bastante na qualificação do processo. O que fica é o desafio de pensar modelos de geração de alternativas, que considerem as múltiplas dimensões que configuram um produto e que levem em conta a inserção dos próprios usuários no processo de desenvolvimento, a disponibilização das ferramentas necessárias para a geração de ideias inovadoras, além da capacitação para a utilização de todos os recursos necessários para a geração do produto.

Esta é uma perspectiva que demonstra uma atuação mais humanística das equipes de projeto, voltada ao desenvolvimento de produtos e de espaços que proporcionem a interação e a conexão social dos indivíduos, considerando as necessidades dos vários segmentos sociais.

Portanto, a partir das experiências descritas e das oportunidades identificadas, o TransLAB pretende iniciar a construção de workshops. O objetivo é contribuir para a construção de uma nova cultura de projeto, que fortaleça a rede de profissionais e qualifique o processo de desenvolvimento de produtos feitos de papelão. Serão processos orientados por uma cultura maker, que consideram o papelão como principal recurso material, mas que acima de tudo levam em conta a pesquisa científica como ferramenta norteadora. Em breve compartilharemos mais informações sobre esses workshops e faremos uma convocatória para potenciais interessados.