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Diário de Campo

Durante o trajeto de ida ao Solar do Aconhego, fui imaginando como seriam os resultados da atividade que eu havia planejado para o dia. A ideia era olharmos algumas revistas, fazermos alguns recortes, e apartir destes elementos, iniciar novas conversas e promover uma melhor interação do grupo. Chegando la, grande parte de nossos vizinhos mais experientes estavam no quarto, aproveitando o clima de chuva e frio para descansar. Quanto aos idosos que estavam na sala, duas estavam dormindo na poltrona e uma estava fazendo nebulização. Enquanto eu cumprimentava as demais pessoas, Jojo acordou. Estava maquiada, com olhos cor de rosa combinando com suas unhas, pintadas com esmalte tambem na cor rosa. Elogiei a sua beleza e ela sorriu, parecendo tímida. Balbuciou algumas palavras que não compreendi e voltou a dormir.

Fui visitar o quarto da Dul. Inicialmente, ela não recordava quem eu era. Logo depois me convidou para sentar e me elogiou, dizendo que eu estava muito bonita. Perguntei se ela queria fazer algo, mostrei as revistas e sugeri olharmos as noticias (já que estava falando de noticias). Então dona Dul me diz que preferia ficar “quietinha”. E que na casa tinha livros, revistas, mas que ela não queria fazer outra coisa. Perguntei se queria aproveitar e ir um pouco para a sala, para fazermos algo, conversar com os demais, etc e com um tom muito calmo, me responde com confiança: “Eu gosto da solidão. Ela me ensinou muita coisa, inclusive aprender a dar valor para as pequenas coisas e para a gente mesmo”. Complementou dizendo que não gostavam de sair do quarto, devido à fragilidade de sua saúde (falando também dos demais idosos da casa) evitam correr o risco de se locomoverem, podendo cair e quebrar alguma parte do corpo, passando meses com dor. “Arriscar se quebrar só pra sair não vale a pena”, diz ela. Compreendi que, além de qualquer aspecto subjetivo envolvido, este realmente era um motivo real, onde ela mesmo passou alguns meses com dor devido a uma queda.

Logo entrou a enfermeira, e Dul me apresenta a ela com todo o carinho “Essa é a Angélica, e sempre vem conversar comigo”. A enfermeira sorriu e acrescentou “Jessica- Dul, Jessica!”. Todas rimos da situação. Logo dona Dul ficou segurando minha mão, como de costume, e então começamos a falar do tempo. Ela me falou que prefere dias frios e chuvosos, pois junto com o calor surgem muitas doenças, tanto em animais como em pessoas. Logo acrescentou: “Tu viu o concurso de futebol que tem hoje? É do Brasil. Eu não sou fanática, mas estou torcendo”. E então começamos a pensar sobre a importância do futebol na sociedade atual, onde Dul me fala do quanto uma taça de futebol é valorizada, e que enquanto as torcidas brigam e se machcam, as crianças assistem a isto como sendo algo natural. Finaliza me dizendo que quando a gente é fanático por uma coisa, perde de ver outras que também são importantes, e que isso acontece onde moramos. Dá-se tanta atenção ao futebol, e com isso, corre-se o risco de esquecer de outras coisas. Neste momento fiquei refletindo sobre a análise critica que Dul fez em segundos. Com 98 anos, corpo frágil e importantes falhas de memória, nossa querida vizinha mantem viva sua critica à fatores tão importantes e presentes em nossa cultura, que quase diariamente passam esquecido por grande parcela da sociedade. Como é bom trocar experiências e ter contato com essa sabedoria!

Andando pelos quartos para cumprimentar quem estava acordado, encontrei a Bettynha. Bem arrumada, estava procurando seu abrigo cor de rosa. Foi verificar com a enfermeira o motivo de não estar dobrado em seu armário. Após a enfermeira explicar-lhe que a roupa estava sendo lavada, Bettynha sentou-se na cama, parecendo aliviada. Ao cumprimenta-la, me recebeu com um abraço e disse que não ouvia, era surda. Pediu que eu falasse bem alto. Mesmo gritando meu nome e tentando iniciar um diálogo, ficamos apenas em gestos, pois ela não compreendia o que eu tentava comunicar. então ela disse “Está me perguntando se eu estou bem?” e eu acenei que sim. Então ela disse que estava bem e agradeceu minha visita.

Fui para a sala e encontrei Ve. Ela foi a primeira a me receber quando fiz o primeiro contato com a casa. Relembrei meu nome e que ela já me conhecia, então ela me recebeu com muito carinho. Antes de tudo, pediu-me desculpas por sua aparência, pois havia caido e quebrado alguns dentes. Contou-me que estava na ponta da cadeira, e então caiu e machucou-se, e que vem sentindo dores do impacto há dois meses. Elogiei as unhas dela que estavam pintadas da cor vermelha. Ela sorriu e agradeceu-me. Contou que está com 84 anos (completados agora no mês de junho), é viúva, tem dois filhos e 1 irmão vivo. Também possui netos, bisnetos e sobrinhas muito queridas, que quando eles marcam encontros, sempre se divertem muito, pedindo muito conselho para a “tia-avó”.

Relata que adora estar com a juventude, bem como conversar com as pessoas. Falamos de seu gosto por pimenta, do tratamento que recebe na casa, de lembranças de vida, do quanto seus filhos a tratam bem e que gosta de morar ali. Me fala que precisamos enfrentar a vida da melhor forma possivel, e que independente dela morar na casa de repouso ou com os filhos, busca ver tudo de forma positiva. Mora no residencial fazem dois anos, porém já precisou morar neste mesmo local um tempo atrás. Contou-me que após sua vinda para a casa, emagreceu 35 kg, e que hoje sente-se muito bonita, o que isso a deixa bem constrangida, afinal “velha da minha idade não deve se sentir bonita”, diz ela. Rimos do comentário e elogiei, parabenizando-a pela determinação de emagrecer (estava com sobre-peso e diversos problemas de saúde em função disso). Falamos sobre novela, onde ela me mostrou que conhece o nome de todos os artistas, e tambem falamos de ideias para atividades. Ve me disse delicadamente que ela não esta “muito afim” de fazer algo, que gosta mesmo é de ir visitar a familia. Mas se quiser fazer algo diferente para ela, basta continuar indo e escutando as suas histórias. Me agradeceu por eu “demonstrar interesse” pelo o que ela me contou e finaliza me dizendo “Tu nem imagina o quanto tu me fez bem”.
Me despedi de todos, e recebi um carinhoso “vai com Deus e volta, viu?” de Dul.

Se o objetivo do projeto é compartilhar histórias, troca de conhecimentos e dar voz para estas pessoas tão experientes, sinto que estamos no caminho certo.