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Diário de Campo

Chegando no Residencial Solar do Aconchego, o mesmo cenário da semana anterior: As idosas estavam aproveitando para fazer o descanso após o almoço. Algumas olhando tv, outras dormindo (a maioria) e os demais repousando nos quartos.

Sentei ao lado da Sra. Jojo, que imediatamente se apresentou como “Jojo Terezinha”. Esta tem 83 anos e estava tentando ensinar o alfabeto para a Sra. Jane, que circulava pela casa. Entre repetir letras e me olhar, dona Jojo me contava sobre sua tristeza em ter recebido uma carta da Europa, e que esta carta havia sido extraviada por ela. Enrolada em um manto preto, de botas de lãs e pernas cruzadas, Jojo me olhava (como quem está avaliando) e tentava fazer Jane ficar parada. Logo após ganhou sobremesa, e então ficou concentrada no doce.

A senhora Jane, entretanto, parecia nem dar atenção ao alfabeto de Jojo. Andando de um lado ao outro, sentava em todas as cadeiras vazias da sala e dizia frases em um tom tão baixo, que quase não dava para ouvir. Tentei estabelecer diálogo com ela, mas enfermeiras e moradores me avisaram que ela não falava com ninguém. A enfermeira relata que desde sua chegada, a senhora não fala com ninguém, e que comunica-se apontando para as coisas e também mandando beijos.

Ao lado delas estava Ira. Pareceu ficar tímida com minha presença. Ao cumprimenta-la, me apresentei e ela prontamente respondeu seu nome. Contou que está com 43 anos (segundo enfermeira, está com 97- a segunda mais idosa da casa) e que seu sapato estava pesado demais para o corpo dela. Desamarrou os cadarços do sapato (que realmente pareciam pesados) e amarrou-os novamente, dizendo que agora ficaria melhor. Vê-la amarrar o cadarço, lembrei-me de uma criança. Ela amarrou tão lentamente, e com tanto cuidado…aquilo parecia ser uma conquista para ela, já que suas mãos tremiam o tempo todo. Ira diz estar ansiosa para voltar para casa, e rever seus pais. Diz que tem filhos, mas que estes acabam ficando “descuidados” com ela, devido as suas rotinas intensas. Mas que enquanto espera, vai se adaptando (e então vira-se de costas para mim e assiste televisão, comentando com a enfermeira o quanto Reynaldo Gianecchini está bonito de cabelos brancos).

Na semana passada conheci a Toninha, formada em psicologia e filosofia e mãe de 11 filhos. A enfermeira relatou que ela estava muito agitada, e por isso precisou ser medicalizada. Na tarde de hoje ela estava dormindo. A enfermeira comentou que ela foi diagnosticada com esquizofrenia, e que ela vem dialogando cada vez menos. Seu vocabulário tem se resumido a monossílabas.

Conheci também Nadinha, conhecida pelo grupo como “a desbocada”, visto que passa o dia gritando “palavrões” para todos. Sempre atenta a conversas dentro da sala, dona Nadinha vai interrompendo os diálogos e variando entre palavrões e a frase “minha mãe”. Ao ver a fisioterapeuta conversando com outra moradora, ela gritou “Mentira. Para de falar merda sua desgraçada!”.(sic). A frase gerou risos na sala, onde todos estão acostumados. Nadinha expressou ficar muito incomodada, e começou a chamar pela mãe. Não quis conversar comigo.

Pela sala, acompanhada da fisioterapeuta, passeia a Sra. Luci que está reaprendendo a andar com o apoio da bengala. Me sorriu e continuou o passeio.

Na semana anterior, o clima estava pesado devido ao falecimento de um dos senhores que morava ali. Restaram 2 homens. Neste domingo o Sr. Natinho foi hospitalizado, e nitidamente estavam todos preocupados com sua saúde. Algumas senhoras perguntavam sobre ele o tempo todo. O senhor Ê preferiu ficar no quarto, fazendo palavras-cruzadas.

Ao lado, no canto da sala, a dona Naná estava dormindo. Estava bem maquiada, já que hoje era dia de receber visita do médico. Ao ser acordada para receber o médico, prontamente se arrumou na poltrona, e quando este chegou, ela começou a abraça-lo e chorar, balbuciando algumas palavras que não consegui compreender. Foi acalmando-se na medida em que o médico, carinhosamente passava as mãos em seus cabelos.

Antes de ir embora, passei pelo quarto de dona Dul, para ver se já tinha acordado. Quando ela me viu, sorriu e disse “Ah, tu voltou! Eu me lembro de ti”. Após me abraçar, falamos sobre crianças com defctis mentais e o desafio aos pais, que precisam desenvolver várias habilidades para dar conta do cuidado do filho. Comentei alguns casos que conheci e ela contou outros que também acompanhou, e o quanto se sentia triste ao ver as mães sozinhas que cuidavam com tanta paciência de seus filhos doentes. Segurando a minha mão com firmeza, senti o quanto a sua pele era macia.

Elogiei, dizendo que a mão dela era muito delicada. Então ela ficou por alguns minutos olhando minhas mãos e as delas. Tiramos algumas fotos do momento. Ela viu minha tatuagem e ficou impressionada com a árvore desenhada. Passou a mão por cima do desenho e ficou sentindo. Antes de eu ir embora ela me perguntou se ela gostava do que fazia (estar ali), eu respondi que estava muito feliz por poder conversar com elas. Então ela sorriu e agradeceu por eu estar ali, pois ela sentia falta de conversar. Nesse momento veio a enfermeira e levou dona Dule para lanchar. Combinamos de eu falar com ela semana que vem, “mesmo que ela esteja dormindo” (sic).