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O projeto VIZINHOS MAIS EXPERIENTES tem como objetivo conectar gerações e oportunizar espaços de troca de experiencia, bem como promoção de ações que visam o investimento na autoestima dos idosos do bairro Rio Branco.

As atividades são pensadas a partir de duas linhas de ação:

A primeira linha acontece a partir da parceria do TransLAB com o Residencial Geriátrico Solar do Aconhego, onde semanalmente realizamos visitas ao residencial, com o objetivo de promover espaços de escuta aos idosos, bem como desenvolver ações que influenciam na qualidade de vida destas pessoas.

A segunda linha de ação acontece atraves da abordagem de idosos que residem pelo bairro. A proposta é que, conectando pessoas interessadas em investir nesta temática, possamos criar uma rede de parcerias e então pensar ações relacionadas a esta temática.

O projeto é aberto a todos as pessoas que possuem interesse em contribuir para a reflexão e desenvolvimento de ações voltadas para a terceira idade. Acreditamos que pensar o envelhecimento e investir na saúde de nossos idosos é uma demanda de grande importancia frente a sociedade pós-moderna, onde percebemos o isolamento social e a desvalorização da terceira idade como fatores presentes em nosso cotidiano.

Obs.: Nestes relatos usaremos apelidos para identificar nossos queridos vizinhos.

A primeira visita ao Residencial Solar do Aconchego aconteceu no dia 18 de Maio, segue o relato:

Diário de Campo: 18 de Maio

Chegando na casa o clima estava bem “pesado”, visto que na noite anterior um idoso passou mal e foi para o hospital, falecendo no local. Devido ao ocorrido, alguns idosos se desorganizaram, sendo necessário o uso de medicamento para acalma-los.

Além desta situação, minha visita ocorreu após o almoço da casa, então estavam todos em ritmo de “descanso”.

Atualmente residem 17 moradores, sendo 2 homens e o restante senhoras.

Ao chegar na sala de estar, presenciei uma cena bem engraçada: estavam todos dormindo nas poltronas, e enquanto os moradores dormiam, uma senhora estava desamarrando os sapatos dos demais, sorrindo para a enfermeira. A enfermeira chamou-a de “Travessa” e conta que a senhora está sempre “aprontando”.

Na sala também estava a senhora Jane, aparentemente muito mais nova que todos os moradores. Porém estava com os olhos bem inchados (parecia ter chorado) e segundo a enfermeira, ela não conversa com ninguém.

Conheci tambem Toninha. Mae de 11 filhos, formada em filosofia e psicologia pela PUCRS. Ela estava muito desorganizada, e por isso precisaram medica-la. Ela estava em uma sala mais isolada, pois estava gritando.

Ao longo da tarde, fui carinhosamente recebida pela Sra. Dul. Estavam todas dormindo, e ela acordada vendo tv eu seu quarto. Dona Dul passou 1h me contando sobre sua vida e lembranças que gostava. Ao perguntar sua idade, ela me disse ter entre 100 e 400 anos, e que nasceu dia 16/10/1906. Também não recorda seu nome completo.

O quarto dela é decorado com caixas cheias de linhas de costura. Conta que foi uma grande costureira em Rio Grande, muito requisitada por importantes alfaiatarias. Casou-se duas vezes, sendo que no primeiro casamento tomou a iniciativa de continuar trabalhando após casarem-se. Conta que aquilo não era aceito na época, mas que ela persistiu até seu esposo aceitar. Não teve filhos e é viúva. Disse que seu esposo deixou uma herança muito boa, mas que ali ela não conseguia aproveitar. Falou de religião e de economia, mostrando ter uma olhar bem critico sobre o que contava.

Um fato Interessante é que todas as senhoras com quem conversei, ao perguntar sobre dados atuais, sempre me respondiam com fatos do passado.

Perguntando para Dul sobre como ela se sentia aqui em Porto Alegre, ela respondeu imediatamente “eu não sou feliz aqui. Nada como a gente poder estar na casa da gente”.

Com voz muito baixinha, corpo pequeninho e mãos delicadas, a senhora Dul foi muito carinhosa e receptiva. Me olhava nos olhos e pareceu ficar emocionada ao lembrar dos tempos de costura.

Perguntando sobre o que ela gostaria de fazer, de ideias para atividades, ela respondeu com um tom de voz calmo “Não quero fazer nada. Só estou esperando para morrer”.

Segundo as enfermeiras, esse é o clima por ali. Relatam que são sozinhos, e que não costumam conversar entre si, havendo raras exceções.

Conversando com a fisioterapeuta do local, esta relatou que Dul não costuma falar com ninguém, e que exigiu ter um quarto individual, já que gosta de isolamento (todos os demais são quartos coletivos, então adaptaram um escritório e montaram um pequeno quarto para ela). Conta que ela chegou de Rio Grande com o fêmur quebrado, e que ficou 3 meses sem poder andar. Conta que ela é “resistente” a qualquer tipo de tratamento, e que não gosta de ficar ali.

Saí do local com o sentimento de que aquela tarde havia sido especial. A maioria das senhoras sorriram quando falei que queria conhece-las, saber delas. Algumas comentavam sobre o quanto é bom ter alguém para conversar.

Uma das ideias para interagir e alegrar o pessoal do Residencial é uma tarde com pintura de unhas, já que o pessoal lá gosta de cuidar da aparência :)

Uma das ideias para interagir e alegrar o pessoal do Residencial é uma tarde com pintura de unhas, já que o pessoal lá gosta de cuidar da aparência 🙂